Enquanto espero, pego na primeira revista que vem à mão, GQ, uma revista para homens. Ao contrário da MaxMen, este exemplar deixou-me boa impressão, bons jornalistas, bons artigos, temas interessantes... enfim, uma revista para "um ser masculino mais evoluído", certamente um nicho (nichozinho) de mercado dum vasto segmento.
Desvio o olhar para as crianças presentes. Três meninas.
Uma, a mais velha, pavoneia-se frenéticamente em frente ao espelho (começa cedo).
A segunda, seguramente irmã da primeira, sentada no chão, está com uma cara de semi-nojo enquanto pega no cabelo cortado impiedosamente caído no chão. Depois, como se tivesse encontrado alguma coisa importante, sorri e levanta-se com uma madeixa agarrada pelos dedos,
"mãe este é teu", a mãe olha e sorri
"deve ser, parece meu", a mãe volta para a sua revista e a menina mete a madeixa cortada no bolso do vestido.
A terceira está siderada a olhar, para aquela que, deverá ser a sua mãe, acabadinha de ser enfiada num daqueles secadores tipo capacete de astronauta. A menina nem se mexe, tem uma boneca na mão agarrada pelos cabelos, mas está com o olhar fixo na mãe. Imóvel por algum tempo, depois olha para cada uma das pessoas que ali está, uma a uma, só encontra os meus olho, depois olha para a mãe e volta a olhar para mim, parece esperar que eu reaja a algo. Eu não a percebi. Então levanta-se, decidida, espreita, por baixo do capacete, para o rosto da mãe e diz
"mamã! ainda respiras?" A mãe gozou bastante com a situação, ridicularizou-a até. A menina voltou a sentar-se, uma mão agarrada ao cabelo da boneca a outra ao banquinho onde se senta. Não demove o olhar da mãe, como quem fica de guarda. E fica.